Eu ando pela casa, para cima e para baixo, de noite, enquanto todo mundo dorme. Com os olhos vermelhos e caídos, sou quase como um fantasma. Quase. Porque não sou leve.
Eu ando pela casa, para cima e para baixo, de noite, pisando forte, fazendo barulho. Eu peso. Eu sou um peso morto que esqueceu de morrer. Eles me dão drogas para eu não morrer, eles me dão drogas que vão me matar.
Quando eu era pequena, uma amiga da escola me mostrou que se ela apertasse o pulso forte o suficiente, conseguiria ver o próprio sangue correndo na veia. Eu ri. Eu vi. Era verdade. Fiquei fascinada. Durante muito tempo eu apertei o meu pulso forte o suficiente mas eu não via nenhum sangue correndo. O que eu via correndo era eu, de mim mesma, de um lado para o outro. Dentro da cela em que eu vivi. Vivo. Até hoje.
As drogas que eles me dão são para eu não me cortar. Que inferno! Se eu não posso ver meu sangue correr como a minha amiga, deixem-me ver o meu sangue correr do meu próprio jeito. Deixem eu me cortar. Me punir. Eu sou um monstro. Eu matei todos vocês na minha cabeça.
Eu tenho nojo de mim. Eu ando pra cima e pra baixo, pisando firme, me sentindo pesada, culpada, ferida, louca, suja. Eu lavo o rosto, esfrego o corpo. Sou suja, suja de mim. Cheia de mim.
Eu estou ficando louca. Eu ando pra cima e pra baixo e não me canso. Não durmo. Só como. E dou de comer para todos vocês que vivem dentro da minha cabeça. Não é voluntário, por mim vocês morreriam todos. Sou uma assassina. Em série. De erros e suicídios fracassados.
Eu estou ficando louca, vocês estão ficando cansados.
Você cansou de mim? Você vai cansar de mim se eu ficar louca? Você vai beijar as minhas cicatrizes? Você vai me forçar a foder com você? Você vai me abraçar quando eu gritar com as minhas alucinações? Você vai me salvar? Você pode me salvar?
Acaba logo com isso. Até meus textos são maníacos, desordenados.
Acaba logo com isso. Atira. Mata. Morre.
Só pra viver mais uma vez.