Quando eu era pequena meu pai falou para todos naquele almoço de domingo: minha filha tem olhos tristes.

Hoje quando eu acordei, eu não tinha olhos tristes. Surpreendente o suficiente, meus olhos estavam vazios. Não diziam nada, talvez combinando com minha boca e dedos que já há muito não trabalhavam.

Um homem que eu costumava conhecer me pegou pelos braços hoje e me levou. Eu não sei exatamente pra onde, talvez para o abate. Talvez para mais uma sessão de estupro. As pessoas que passavam na rua me olhavam e viam meus olhos vazios. Eu tentei pedir ajuda, eu queria algum socorro, mas estava tudo vazio. Elas passavam como se nada fosse. Como se a violência que estava para acontecer fosse corriqueira, ela agüenta, os olhos já dizem que não sente nada.

O homem me fodeu. Com hora marcada. O homem, cheio de compromissos e uma mulher esperando em casa, me fodeu. Com força, com raiva, até sair sangue. Eu olhava e não via. Ele me olhava e não me via. Está tudo vazio. Dentro e fora.

Meus olhos e meus buracos, todos os homens, deixaram vazios.