Eu disse: eu não estou me sentindo bem.
Ele afastou o cabelo dos olhos. O que se passa, boneca?
Eu não sei, uma tristeza, uma angústia, um luto antecipado por algo que eu nem sei o que é. Entende?
Ele sorriu. Piscou três vezes seus olhos pequenos, pensou antes de falar. Seu corpo me parecia tão macio... Fecha os olhos, boneca. Eu posso fazer você se sentir melhor. Me diz o que você vê.
Eu fechei os olhos.
Eu vejo meus pais. Como opostos. E raízes em baixo deles. Muitas raízes. Eu vejo máquinas de escrever e livros flutuantes.
Abri os olhos. E agora, Freud?
Ele riu e me beijou um beijo rápido. Sua boca era fria, mas eu sou inteiramente fria e ainda assim ele estava ali comigo. Você é fascinante, boneca. Eu não sou sua boneca. Você sempre foi boneca de todo mundo agora, eu não vou mais deixar que isso aconteça, é só minha.
Mais um cigarro, mais uma bebida. Eu começava a ficar quente. Não é que o filho da puta sabia mesmo como me fazer sentir melhor? Uma boneca... Eu gargalhei.