A casa tinha apenas um cômodo. Tinha teto, não era engraçada. O transtorno obsessivo compulsivo mantinha a casa organizada, limpa e com um cheiro único. Era só. Só os livros, só dois pratos, só um colchão, só a falta de um ser humano ali. Talvez só faltasse um pouco de sanidade. Seus amores de uma noite notavam que algo ali não ia bem, mas quem liga? Em algumas horas sairiam dali como entraram, só com um pouco mais de esperma da boca.
Seus surtos eram notáveis, ninguém percebia. A casa virava de cabeça para baixo, apesar do chão continuar no mesmo lugar. O livros abriam-se nas páginas de frases memoráveis, de passagens que descreviam exatamente como ele se sentia (porque o próprio não sabia fazê-lo). Quando cansado da leitura, nadava numa piscina de caixas de remédio vazias: para depressão, pressão, ansiedade, epilepsia, gastrite, artrite, artrose, insônia, alucinações. Mas não, drogas nunca usou. No armário do banheiro ele mantinha várias seringas, e quando se sentia morto colhia seu próprio sangue. Por incrível que pareça aquilo dava frutos.
Os médicos afirmavam que aquilo tudo ia passar, ele acenava com a cabeça, sorridente, mandando todos a merda por pensamento. Os médicos, os deuses, os grandes porra nenhuma. Alguns médicos faziam o que podiam para salvar seus pacientes, aparentemente os médicos dele faziam o que podiam para não fazer porra nenhuma. Não havia esperança.
Depois de mais um homem sair de sua casa, esse de número mil, ele parou de contar. Parou de limpar. Parou de tomar os remédios, parou de colher o próprio sangue. Dane-se a bagunça, fez a maior sujeira da sua vida: pintou seu apartamento com o próprio cérebro.