Foi em mais uma daquelas festas babacas regadas a álcool e drogas, na casa de alguma amiga milionária, que Catarina o conheceu. Ele estava sentado num canto escuro daquela sala imensa segurando um copo de plástico vazio. Estava de preto, quase como que se não quisesse ser percebido. Catarina lembrou de uma das milhões de entrevistas de emprego que passou e mentiu sobre o quanto era perceptiva. Talvez não fosse mentira, ela pensou. Respirou fundo umas três vezes antes de dar passos longos em direção ao homem misterioso.
Quando finalmente chegou perto dele acendeu um baseado e sorriu. Esticou o braço na tentativa de dividir aquele pedaço de seda com erva dentro mas tudo que obteve foi um “eu não uso drogas”. Um grande e seco “eu não uso drogas”. Que merda você está fazendo aqui, então? – pensou Catarina já um pouco irritada com aquele estranho tão... estranho. Mas tudo que ela conseguiu foi manter o sorriso e dizer que estava tudo bem, sobraria mais para ela.
Você não deveria fumar, sabia? – disse o homem de preto enquanto Catarina se encostava na parede, sentada ao lado dele, curtindo o efeito do que ela já não sabia ser a maconha ou toda aquela merda que ela tinha usado antes de sentar ali. Ela tinha vontade de dar um soco na boca daquele invasor e ver seus caninos perfeitos irem ao chão, um tubarão indefeso. Não se deu ao trabalho de responder, só riu com a idéia de que ela mesma já tinha perdido uns caninos por aí.
Depois de um tempo em silêncio, ela percebeu que estava sendo encarada pelo idiota que achava que podia dizer o que ela deveria ou não deveria fazer. Virou o rosto em direção a ele, quase em slow motion e sem pensar muito, perguntou: Você acredita em Deus? Antes que ele pudesse pensar riu da própria pergunta, de resposta tão óbvia para ela. Ele respondeu um “não” acompanhado de justificativas e teorias das quais Catarina não estava nem um pouco interessada mas fingia interesse apenas pela diversão de vê-lo como um babaca. Um babaca que só ela sabia que existia.
A festa não parou enquanto os dois se estranhavam em um canto escuro daquela sala imensa. A maioria das pessoas ali estavam dopadas demais para notar que haviam pessoas além deles mesmos naquele lugar, mas os que ainda tinham um pouco de consciência percebiam Catarina e seu mais novo amigo, e apressaram-se para julgar, comentar, apontar, rir e desaprovar.
Catarina não os percebia. Todos sumiram e aquele tubarão começou a ficar interessante. Ele falava sobre Freud, Rimbaud, política internacional, Godard, dietas, doenças psiquiátricas e Andy Warhol com um conhecimento de causa encantador aos olhos da menina que aos poucos ia ficando sóbria.
Beijaram-se.
Catarina queria enfiar todo aquele conhecimento garganta abaixo, se possível injetá-lo. Ela queria aquele corpo livre dos vícios e não o seu, que era quase uma prisão. Ela queria vestir aquela roupa preta e passar despercebida com suas novas idéias e estilo de vida. Catarina queria fazer diferente dessa vez.
Foi difícil, mas acharam um quarto vazio naquela mansão. Cada vez que o estranho tocava sua pele, tinha certeza de que queria viver, de que queria mudanças. Cada vez que ele a mordia, ela sabia que não iria se importar se aquele tubarão arrancasse um pedaço. Não fizeram amor, mas também não treparam. Se encaixaram, fizeram um favor um ao outro. Num outro momento Catarina diria que foi apenas uma win-win situation. Mas dessa vez ela não estava indo para cama pela diversão, só para ver a cara idiota de um homem quando ele goza. Ela aceitou ir pela pele que arrepiava toda vez que ele a tocava. Ela aceitou pela mudança, por uma tentativa de entrega. Os dois gozaram e ela não reparou nas expressões dele. Dormiram como bebês prematuros entubados.
As amigas mais próximas esboçavam algum traço de preocupação e se perguntavam: quem fim levou Catarina?
Catarina acordou assustada com aqueles olhos pequenos e pretos olhando para sua pele oleosa e seu cabelo bagunçado, típicos de quando ela acorda. Gritou para que aquele homem saísse dali. Estava desesperada, arrependida, enjoada consigo mesma. Precisava de um banho de bucha, precisava anotar que essa seria mais uma daquelas noites que ela iria se obrigar a esquecer. O homem-tubarão parecia assustado e se vestia com uma rapidez desengonçada. Antes de sair ele virou e olhando para a boca de Catarina, resmungou: mas eu nem sei seu nome... E bateu a porta com uma força fora do comum.
Meu nome é Camila... – sussurrou Catarina, para ninguém, olhando para o chão.