Não me leve a mal, hoje é carnaval!

É José, a festa não acabou só para você. As luzes se apagaram pra mim e quase que pra ele. Não morre, José, agora já sem mulher, deixa que eu te conte o que aconteceu...

Sete anos de folia. Sete anos de carnaval fora de época e a gente pulava, eu e ele, sem sincronia alguma. A maquiagem escorria mas a máscara não caia. Ah José! o que eu engoli de confetes...

Ele, Pierrot (sem exatamente saber o que é um), e eu, Melindrosa da piteira velha, das pérolas falsas, da pena de corvo. O nosso amor era tão possível que nunca foi consumado. Brincávamos de ser o que gostaríamos que a vida nos tivesse transformado, alternando com a realidade doída do sol quente que ardia fora do salão. Calor eu só conhecia o da pele dele. A dança sem jeito, os passos que eu acompanhava, a coreografia de mentiras que a gente montou. Como a dançávamos bem! Os pés moveram-se por sete anos, sem trégua. Meu caro José, se apenas pudesses ver quantas bolhas no pé eu tenho hoje...

Arlequins, palhaços e tantos outros que dispensei, enquanto ele colecionava índias, baianas e colombinas com o objetivo de dominar o salão, fazer um mundo só dele, um salão, uma festa para celebrar sua existência. Eu queria um mundo de dois, um mundo onde só cabiam minha falta de equilíbrio e os vícios dele. Mas a gente ria das diferenças e com objetivos diferentes seguia dançando.

Quando dei por mim o salão estava quase vazio e eu quase cansada, meio morrendo meio sobrevivendo, tropeçando nas armadilhas de serpentina que eu mesma criei, deixei o salão sem olhar pra trás. Minha maquiagem havia escorrido por completo e não havia mais personagens a manipular. Não havia mais o que esconder ou descobrir. Perdeu a graça, a magia, o encanto, a paixão. Não havia mais motivos para continuar, mas não havia também motivos para morrer. Cheguei até a porta sentindo o suor escorrer pelas minhas costas quando ouvi ele chamar pelo nome que eu inventei quando nos apresentamos.

Olhei pra trás.

Era ele, Pierrot, dando um beijo e começando mais uma festa, com o amor da colombina.

Agora livre das fantasias e maquiagens, eu vou descobrir quem sou.

Adeus, José.