Sua risada bêbada faz eco pela vizinhança. Eu mando você calar a boca, entre risos, sem qualquer tipo de moral ou autoridade sobre você. Isso faz bem, penso. Faz bem estar no alto de um prédio recém construido, em uma cidade pretenciosa, bebendo vinho barato com você sem pensar que o lugar mais alto que eu já te levei foi na laje da casa da minha vó (quando eu te apresentei minha família e você vomitou no pé do meu irmão de cinco anos, lembra?). Sem pensar que quem fez as honras de apresentação entre você e a cocaina escondida no forro da sua bolsa fui eu.

Você ainda está rindo, tão escandalosa, como se antes dessas duas garrafas de vinho que você já secou a gente não tivesse brigado. Como se a blusa que você está usando não custasse o que eu ganho por mês lá na firma. Como se você não tivesse que aguentar os amigos podres e ricos do seu pai acidentalmente passando a mão em você nessas festas babacas que você frequenta. Eu, nesse momento, também já não acredito mais que tudo isso aconteceu. Seus dentes devidamente clareados e alinhados me distraem de toda essa bagunça que é você. Mais um pouco de álcool e eu já não quero saber dos que te comeram antes de mim, do porco do seu pai, da cicatriz nos seus pulsos e da sua família que acha que você só quer chamar atenção, de toda a sua cultura e de quantas carreiras você já cheirou em cima dos seus livros de Rimbaud. Também tenho as minhas cicatrizes, meus chiqueiro, Paulo Coelho e uma coleção tímida de bocetas. Nada importa.

Você, possuidora da sabedoria infinita das meninas de vinte anos, ainda não percebeu que nós não somos para ser. Você está comigo porque o contraste das nossas peles e conta bancária enfurecem seu papai, porque eu sou um caminho asfaltado para a sua amada cocaina, porque eu sou a única pessoa que não comeu suas amigas antes de comer você, porque você tem um buraco e eu só deixo ele mais negro. Eu estou com você pela sua mucosa rosada e para ter alguém com quem ficar acordado quando, semanalmente, bate o medo de dormir. Isso é amor, querida, mutualismo. E amor, na maioria das vezes, não é para ser.

A sua cidade parece, daqui de cima, tão pequena e frágil como você. Todos ouvem mas ninguém escuta sua risada de socorro, da mesma forma que o concreto todos os dias sorri para você. Daqui de cima tudo é bonito e doce. Tudo tão fácil como decidir não pular.