All covered in scars and full of heroin

Eu sempre fui superprotegida. Como primeira filha e, durante seis anos, única, não poderia ser diferente. Quando pequena quis muito ter uma cicatriz. Quis muito e por muito tempo. Achava bonito e simbólico e a única coisa que eu tinha para ostentar eram estrias que clareavam lentamente.

Um dia aconteceu. Ganhei uma bela cicatriz no pé. Não foi resultado de nenhum ato heróico ou inusitado, pelo contrário, eu apenas havia escorregado enquanto lavava a cozinha. Para mim pouco importava, eu estava satisfeita com a minha marca. Tão satisfeita eu fiquei que passei a usar só chinelos. Tinha Havaianas de todas as cores.

E então eu cresci. Conheci todas as coisas que podiam me deixar cicatrizes e provei boa parte delas. Fiz marcas por dentro, por fora, de dentro pra fora e de fora pra dentro. Pintei meu corpo com cicatrizes de todos os tipos, tamanhos e cores. Ganhei mais estrias. Algumas rugas. Fiquei tão única e tão destruída mas nunca esqueci do meu pé.

Hoje eu uso muito mais tênis que chinelos. Não tiro a calça jeans. Não me orgulho das minhas marcas mas, se tivesse a chance, não aceitaria retirá-las. Minhas cicatrizes fazem de mim um enorme retalho que me lembra, toda vez que eu olho no espelho, que a sobrevivência é um instinto bonito. De cozinhas sujas a overdoses: por tudo isso e apesar de tudo isso eu ainda estou aqui.