All covered in scars and full of heroin

Eu sempre fui superprotegida. Como primeira filha e, durante seis anos, única, não poderia ser diferente. Quando pequena quis muito ter uma cicatriz. Quis muito e por muito tempo. Achava bonito e simbólico e a única coisa que eu tinha para ostentar eram estrias que clareavam lentamente.

Um dia aconteceu. Ganhei uma bela cicatriz no pé. Não foi resultado de nenhum ato heróico ou inusitado, pelo contrário, eu apenas havia escorregado enquanto lavava a cozinha. Para mim pouco importava, eu estava satisfeita com a minha marca. Tão satisfeita eu fiquei que passei a usar só chinelos. Tinha Havaianas de todas as cores.

E então eu cresci. Conheci todas as coisas que podiam me deixar cicatrizes e provei boa parte delas. Fiz marcas por dentro, por fora, de dentro pra fora e de fora pra dentro. Pintei meu corpo com cicatrizes de todos os tipos, tamanhos e cores. Ganhei mais estrias. Algumas rugas. Fiquei tão única e tão destruída mas nunca esqueci do meu pé.

Hoje eu uso muito mais tênis que chinelos. Não tiro a calça jeans. Não me orgulho das minhas marcas mas, se tivesse a chance, não aceitaria retirá-las. Minhas cicatrizes fazem de mim um enorme retalho que me lembra, toda vez que eu olho no espelho, que a sobrevivência é um instinto bonito. De cozinhas sujas a overdoses: por tudo isso e apesar de tudo isso eu ainda estou aqui.

Sua risada bêbada faz eco pela vizinhança. Eu mando você calar a boca, entre risos, sem qualquer tipo de moral ou autoridade sobre você. Isso faz bem, penso. Faz bem estar no alto de um prédio recém construido, em uma cidade pretenciosa, bebendo vinho barato com você sem pensar que o lugar mais alto que eu já te levei foi na laje da casa da minha vó (quando eu te apresentei minha família e você vomitou no pé do meu irmão de cinco anos, lembra?). Sem pensar que quem fez as honras de apresentação entre você e a cocaina escondida no forro da sua bolsa fui eu.

Você ainda está rindo, tão escandalosa, como se antes dessas duas garrafas de vinho que você já secou a gente não tivesse brigado. Como se a blusa que você está usando não custasse o que eu ganho por mês lá na firma. Como se você não tivesse que aguentar os amigos podres e ricos do seu pai acidentalmente passando a mão em você nessas festas babacas que você frequenta. Eu, nesse momento, também já não acredito mais que tudo isso aconteceu. Seus dentes devidamente clareados e alinhados me distraem de toda essa bagunça que é você. Mais um pouco de álcool e eu já não quero saber dos que te comeram antes de mim, do porco do seu pai, da cicatriz nos seus pulsos e da sua família que acha que você só quer chamar atenção, de toda a sua cultura e de quantas carreiras você já cheirou em cima dos seus livros de Rimbaud. Também tenho as minhas cicatrizes, meus chiqueiro, Paulo Coelho e uma coleção tímida de bocetas. Nada importa.

Você, possuidora da sabedoria infinita das meninas de vinte anos, ainda não percebeu que nós não somos para ser. Você está comigo porque o contraste das nossas peles e conta bancária enfurecem seu papai, porque eu sou um caminho asfaltado para a sua amada cocaina, porque eu sou a única pessoa que não comeu suas amigas antes de comer você, porque você tem um buraco e eu só deixo ele mais negro. Eu estou com você pela sua mucosa rosada e para ter alguém com quem ficar acordado quando, semanalmente, bate o medo de dormir. Isso é amor, querida, mutualismo. E amor, na maioria das vezes, não é para ser.

A sua cidade parece, daqui de cima, tão pequena e frágil como você. Todos ouvem mas ninguém escuta sua risada de socorro, da mesma forma que o concreto todos os dias sorri para você. Daqui de cima tudo é bonito e doce. Tudo tão fácil como decidir não pular.
Inspiração

O poema invade
como a sua faca
nas minhas costas.

E vai embora
como num sopro
para tirar poeira

da máquina de escrever,
da minha infancia,
de o que um dia foi.

Eu,
tu
e ela: poesia.
Setenta e duas virgens promíscuas

Comida
por mais de cem.

Engoli
alguns.

Degustada
por poucas.

Sexo
é raro.

Amor
nem de mãe.

Não me leve a mal, hoje é carnaval!

É José, a festa não acabou só para você. As luzes se apagaram pra mim e quase que pra ele. Não morre, José, agora já sem mulher, deixa que eu te conte o que aconteceu...

Sete anos de folia. Sete anos de carnaval fora de época e a gente pulava, eu e ele, sem sincronia alguma. A maquiagem escorria mas a máscara não caia. Ah José! o que eu engoli de confetes...

Ele, Pierrot (sem exatamente saber o que é um), e eu, Melindrosa da piteira velha, das pérolas falsas, da pena de corvo. O nosso amor era tão possível que nunca foi consumado. Brincávamos de ser o que gostaríamos que a vida nos tivesse transformado, alternando com a realidade doída do sol quente que ardia fora do salão. Calor eu só conhecia o da pele dele. A dança sem jeito, os passos que eu acompanhava, a coreografia de mentiras que a gente montou. Como a dançávamos bem! Os pés moveram-se por sete anos, sem trégua. Meu caro José, se apenas pudesses ver quantas bolhas no pé eu tenho hoje...

Arlequins, palhaços e tantos outros que dispensei, enquanto ele colecionava índias, baianas e colombinas com o objetivo de dominar o salão, fazer um mundo só dele, um salão, uma festa para celebrar sua existência. Eu queria um mundo de dois, um mundo onde só cabiam minha falta de equilíbrio e os vícios dele. Mas a gente ria das diferenças e com objetivos diferentes seguia dançando.

Quando dei por mim o salão estava quase vazio e eu quase cansada, meio morrendo meio sobrevivendo, tropeçando nas armadilhas de serpentina que eu mesma criei, deixei o salão sem olhar pra trás. Minha maquiagem havia escorrido por completo e não havia mais personagens a manipular. Não havia mais o que esconder ou descobrir. Perdeu a graça, a magia, o encanto, a paixão. Não havia mais motivos para continuar, mas não havia também motivos para morrer. Cheguei até a porta sentindo o suor escorrer pelas minhas costas quando ouvi ele chamar pelo nome que eu inventei quando nos apresentamos.

Olhei pra trás.

Era ele, Pierrot, dando um beijo e começando mais uma festa, com o amor da colombina.

Agora livre das fantasias e maquiagens, eu vou descobrir quem sou.

Adeus, José.
Eu não sou a menina intrigante do ônibus. Eu não sou a menina que se destaca no meio de uma festa cheia de bêbados. Eu não sou a menina que faz você ficar com vontade de se matar por ficar menos de 24hrs sem falar com ela. Eu sou a maluca que você tem que antes de mais nada perguntar "como anda o tratamento?". Eu sou a estúpida na qual você enfia o seu pau duas vezes ao ano, just for fun. Eu sou um retalho no chão do quarto de uma costureira. Um pano que não é feio o suficiente, mas não é belo o suficiente também. Um pano que ninguém vê, quase despercebido, que não incomoda que não faz diferença. E que não vai fazer daqui pra frente. Eu sou o pedaço de pano que não é suficiente para estancar o sangue ou cobrir suas genitálias. Eu sou a sua diversão, você é o meu carrasco. Torturador de merda, um dia meu sangue acaba. Quero ver você brincar com tripas, fios e linhas.

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Foi em mais uma daquelas festas babacas regadas a álcool e drogas, na casa de alguma amiga milionária, que Catarina o conheceu. Ele estava sentado num canto escuro daquela sala imensa segurando um copo de plástico vazio. Estava de preto, quase como que se não quisesse ser percebido. Catarina lembrou de uma das milhões de entrevistas de emprego que passou e mentiu sobre o quanto era perceptiva. Talvez não fosse mentira, ela pensou. Respirou fundo umas três vezes antes de dar passos longos em direção ao homem misterioso.

Quando finalmente chegou perto dele acendeu um baseado e sorriu. Esticou o braço na tentativa de dividir aquele pedaço de seda com erva dentro mas tudo que obteve foi um “eu não uso drogas”. Um grande e seco “eu não uso drogas”. Que merda você está fazendo aqui, então? – pensou Catarina já um pouco irritada com aquele estranho tão... estranho. Mas tudo que ela conseguiu foi manter o sorriso e dizer que estava tudo bem, sobraria mais para ela.

Você não deveria fumar, sabia? – disse o homem de preto enquanto Catarina se encostava na parede, sentada ao lado dele, curtindo o efeito do que ela já não sabia ser a maconha ou toda aquela merda que ela tinha usado antes de sentar ali. Ela tinha vontade de dar um soco na boca daquele invasor e ver seus caninos perfeitos irem ao chão, um tubarão indefeso. Não se deu ao trabalho de responder, só riu com a idéia de que ela mesma já tinha perdido uns caninos por aí.

Depois de um tempo em silêncio, ela percebeu que estava sendo encarada pelo idiota que achava que podia dizer o que ela deveria ou não deveria fazer. Virou o rosto em direção a ele, quase em slow motion e sem pensar muito, perguntou: Você acredita em Deus? Antes que ele pudesse pensar riu da própria pergunta, de resposta tão óbvia para ela. Ele respondeu um “não” acompanhado de justificativas e teorias das quais Catarina não estava nem um pouco interessada mas fingia interesse apenas pela diversão de vê-lo como um babaca. Um babaca que só ela sabia que existia.


A festa não parou enquanto os dois se estranhavam em um canto escuro daquela sala imensa. A maioria das pessoas ali estavam dopadas demais para notar que haviam pessoas além deles mesmos naquele lugar, mas os que ainda tinham um pouco de consciência percebiam Catarina e seu mais novo amigo, e apressaram-se para julgar, comentar, apontar, rir e desaprovar.

Catarina não os percebia. Todos sumiram e aquele tubarão começou a ficar interessante. Ele falava sobre Freud, Rimbaud, política internacional, Godard, dietas, doenças psiquiátricas e Andy Warhol com um conhecimento de causa encantador aos olhos da menina que aos poucos ia ficando sóbria.

Beijaram-se.

Catarina queria enfiar todo aquele conhecimento garganta abaixo, se possível injetá-lo. Ela queria aquele corpo livre dos vícios e não o seu, que era quase uma prisão. Ela queria vestir aquela roupa preta e passar despercebida com suas novas idéias e estilo de vida. Catarina queria fazer diferente dessa vez.

Foi difícil, mas acharam um quarto vazio naquela mansão. Cada vez que o estranho tocava sua pele, tinha certeza de que queria viver, de que queria mudanças. Cada vez que ele a mordia, ela sabia que não iria se importar se aquele tubarão arrancasse um pedaço. Não fizeram amor, mas também não treparam. Se encaixaram, fizeram um favor um ao outro. Num outro momento Catarina diria que foi apenas uma win-win situation. Mas dessa vez ela não estava indo para cama pela diversão, só para ver a cara idiota de um homem quando ele goza. Ela aceitou ir pela pele que arrepiava toda vez que ele a tocava. Ela aceitou pela mudança, por uma tentativa de entrega. Os dois gozaram e ela não reparou nas expressões dele. Dormiram como bebês prematuros entubados.

As amigas mais próximas esboçavam algum traço de preocupação e se perguntavam: quem fim levou Catarina?

Catarina acordou assustada com aqueles olhos pequenos e pretos olhando para sua pele oleosa e seu cabelo bagunçado, típicos de quando ela acorda. Gritou para que aquele homem saísse dali. Estava desesperada, arrependida, enjoada consigo mesma. Precisava de um banho de bucha, precisava anotar que essa seria mais uma daquelas noites que ela iria se obrigar a esquecer. O homem-tubarão parecia assustado e se vestia com uma rapidez desengonçada. Antes de sair ele virou e olhando para a boca de Catarina, resmungou: mas eu nem sei seu nome... E bateu a porta com uma força fora do comum.

Meu nome é Camila... – sussurrou Catarina, para ninguém, olhando para o chão.