Eu tenho raiva. Eu tenho raiva do mundo. Eu tenho raiva de mim. Dói. Rasga as entranhas. E eu choro, me auto-mutilo e desmaio. E as lágrimas coçam na pele oleosa, o sangue seca e a garganta fecha. O ciclo recomeça e de raiva em raiva, de dor em dor, eu morro. Eu morro sempre para continuar a sobreviver. Mas já não agüento mais. As rugas vieram mais cedo e não há sangue suficiente para escoar. Subo a rampa infinita do que me parece impossível concluir e me falta o ar. Sem ar, sem sangue e sem esperança, eu vou acumulando pele marcada. Como gado. E eu como feito um animal para cimentar dentro de mim o que eu quero deixar morrer asfixiado. Mas eu já não tenho fome. Eu já não sinto raiva nem dor. Eu já não tenho mais sangue. E a pele, me arrancaram. Nem água eu tenho. Choro seco agora, choro por mim que morri esta noite, desta vez para descansar. Desta vez, sem nem pensar em voltar.